8 de jun. de 2011

Palavras que deveriam ser ditas àquela velha ladra que cre ser capaz de simplificar a mente humana.

Eu nunca fui bom com as palavras, senhorita. E creio que jamais conseguirei ter coragem de expor tudo o que verdadeiramente sinto por meio delas.  Eu sei que, através da escrita, esse novo objetivo é muito mais prático.
Estou me sentindo mal. Ou melhor, estou me sentindo pior do que ontem. Os dias passam e minha vida desce por uma montanha como uma gigantesca bola de neve. Estou cansado. Estou cansado da tamanha hipocrisia relacionada à minha família... Irei tentar resumir, mas antes prometa para si mesma que não irá julgar o que disser aqui... e muito menos achar que algumas palavras darão algum significado a tudo isso.
Já havia nascido como um grande erro. Meu avo jamais aceitaria o acontecido, entretanto, acolheu minha mãe e a mim com todo carinho do mundo (ele sempre destratou minha mãe. Aquilo foi apenas uma ironia) Então nos despencamos da casa que meu avo (por parte de pai) havia dado à eles, para a casa de minha depressiva avó (por parte de mãe). Minha mãe passou a trabalhar e minha primeira mãe me educou. Confesso que fui uma criança muito mimada, daquelas que nunca e jamais ousaram a subir numa árvore com medo de seus parentes ralharem. Nem sequer apanhei, durante toda a minha infância. Fui uma criança muito quieta, não sorria, brincava só, claro que jamais brinquei de bonecas ou algo do gênero, mas isso não importa tanto, de fato. Tive um amigo imaginário durante a minha infância toda, a quem eu nunca dera um nome, mas que o imaginava igualzinho a mim. Era um menino. Ele estava em qualquer lugar que eu ia, e ele fazia de tudo. Corria, jogava bola, soltava pipa, subia em muros, árvores, ele podia cair e se machucar, porque naquele outro mundo isso era uma coisa muito natural. Coisas que meus amigos (e só tinha bons amigos meninos, apenas uma ou duas amigas) faziam. Eu não podia. Não por medo de sentir dor ou algo do gênero, mas por saber que se eu caísse alguém brigaria comigo. Sem contar que eu era uma banana. Tive muitos pesadelos quando criança... Vivia acordando chorando. Lembro-me perfeitamente de uma vez que, após meu tio ir morar em outro lugar, eu e minha mãe resolvemos nos apossar de seu quarto e no dia seguinte eu acordei numa poça... de lágrimas. Tinha sonhado que alguém matava todas as pessoas a minha volta e dizia que iria fazer o mesmo comigo, e só isso. Mais um pesadelo, nada demais. Um dos outros motivos de acordar e prender meu choro, era o simples fato de rezar no dia anterior, bem baixinho ou apenas mentalmente e acordar no dia seguinte e ver que nada tinha se realizado. O que me levou a desacreditar em Deus aos 10 anos de idade. Pedia não somente a paz, mas pedia menos silencio, pedia que as brigas entre meus avós parassem, pedia que meu avo me deixasse em paz e parasse de reclamar que eu não sorria e, principalmente, que eu deixasse de ser isso. Mas tudo quieto, no meu canto, em profundo silencio. Sempre que perguntavam se estava bem, eu rapidamente forjava um sorriso e respondia que sim, sempre que iria para a casa de meu pai (onde era realmente divertido, como uma válvula de escape), eu brincava e sorria, como se estivesse indo tudo bem. Sempre dançando conforme a música... Nunca me rebelando contra a autoridade ridícula de meu avo, contra as mancadas de meu pai, contra a falta de amor de minha mãe e a falta de... alguma coisa que minha avó deixava passar em branco. Sempre a falta, a falta. Sempre tive tudo o que queria, mas sempre havia a falta. Sempre que fizera algo meu, próprio, com as minhas mãos, e mostrava para alguém, a pessoa dizia “bom” e ignorava. Sempre fui ignorado e isso é uma das coisas que eu não tolero mais que aconteça (não no meio familiar...). Já tive épocas da minha vida que imaginava ser uma das crianças azaradas que foram trocadas na maternidade, e que minha família, talvez até muito pobre, iria vir me buscar e eles cuidariam de mim. Se ainda acha pouco, bom, eu também sofri, além de assédio sexual, uma quase violência sexual. Sim, quase fui estuprado, pelo meu querido avo, durante os 13 ou 12 anos. Obviamente tentei contar pra minha mãe, mas ela falou que isso era algo sério e preferi não levar adiante, já que ninguém levaria o caso a sério. Desde então desejei a morte dele, desde o fundo da minha alma, até os mais visíveis tecidos de meu corpo. Comecei a estudar bruxaria com afinco, implorei para todos e tudo o que quiser imaginar, que ele se fosse, que a alma dele fosse apagada, que nada daquilo jamais acontecera. E isso durou um ano até a morte dele. O que foi um extremo alívio, para toda a minha família hipócrita que cismou de chorar no funeral. Pensei então que minha vida fosse melhorar ali. Mas não, estava acontecendo um problema ainda pior... A pré-adolescencia. Meu corpo aderiu aos seios ainda muito jovem, com 12 anos já tinha um corpo muito feminino, o que me dava muita raiva e me tornava ainda mais introvertido. Detestava usar sutiãs e tudo o mais que as mocinhas deveriam usar durante essa maldita fase. Mas consegui tirar de letra, apenas tentei ignorar. Tive minha primeira namorada aos 13 anos também, e cometi uma das piores gafes da minha vida... Deixar que minha mãe descobrisse isso. Foi uma verdadeira inquisição em casa, e se não me engano foi no ano novo. Ela queria que eu mudasse de ideia naquele momento, após dizer baboseiras como: “Isso é coisa do diabo!” E blábláblá. Apenas ouvi e suportei aquilo, calado, sem dar minha opinião, apenas dizendo: “Sim, sim, eu mudarei. Sim, sim, você está certa.” Nunca fiz nada, além disso. Talvez nem por medo, mas sim por preferir guardar minhas risadas pra mim... já que tinha plena razão de que tudo o que minha mãe e meu tio diziam era ridículo demais. Sempre foram. Até hoje. Suas opiniões sempre baseadas no que as pessoas vão pensar ou no que deus vai pensar ou em valores, e nada mais. Sempre julgamentos... Nunca abriram espaço para que eu expressasse alguma coisa e, quando abriam, não só abriam mas me empurravam também.
Mas o passado não importa muito, não é? Estou apenas explicando como as coisas foram parar nesse estado.  Eu provavelmente estaria choramingando se estivesse contando isso em voz alta. Mas isso também não importa. A questão é... Eu não quero essas relações com meus parentes, por não ter mais paciência e muito menos vontade. Não tenho motivos. E muito menos eles deixam isso acontecer. Nessa semana eu e meu pai conversamos com um consultor de um centro de cirurgias etc, para fazer a redução completa dos seios (uma coisa que realmente vai me deixar muito melhor) mas, entretanto, eu sei muito bem que, ao deixar meu pai um pouco só após toda a conversa, ele havia chorado. E imagino o que minha vó e minha mãe fariam numa situação dessas... Então, simplesmente não suporto mais isso. Essa coisa de “oh meu deus, eu quero tanto o seu bem... mas eu prefiro que você sofra a sua vida toda a saber que você mudou de sexo!”. Eles não aceitam, eles acham que eu tenho dúvidas e eles preferem mil vezes que eu morra a que eu seja verdadeiramente feliz. E, por mais que digam “Não, você é minha filha ou você é minha netinha querida!” eu sei que essas palavras nada mais são do que coisas decoradas sem valor. Eu me culpo, eu me odeio, só eu e minha própria sombra sabemos do tamanho do ódio que sinto por não dar orgulho algum a ninguém. Só eu sei que meu narcisismo nada mais é do que uma farsa. Mas eles me culpam também, e muito. Eles me culpam e culpam a si mesmos também. E, o que me deixa mais angustiado, é a falta de coragem de pegar minhas poucas coisas e ir embora daqui. Talvez seja infantilidade da minha parte, ou puro egoísmo... Mas é o que sinto, é como eu vejo. E estou de saco cheio disso. 

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